Páscoa, Passagem, Vida

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Então é páscoa! As lojas estão cheias de ovos de chocolate e de coelhos de pelúcia. Os religiosos comemoram em suas sinagogas e igrejas. As famílias se esbaldam em seus almoços deliciosos. Alguns não comemoram. E os olhinhos das crianças veem tudo e aprendem tudo dessa cultura e sociedade nas quais estão inseridos. Mas o que é realmente importante na páscoa? Na minha humilde opinião, independente de religião ou filosofia de vida, podemos enxergar a Páscoa como uma rica oportunidade de aprendizado tanto pra nós adultos como para as crianças. Vejamos de onde surgiu o termo e seus significados.

A palavra Páscoa vem do hebraico e significa Passagem. É um termo de um livro que considero um dos melhores livros que estou tentando conhecer, a bíblia. No velho testamento a páscoa foi um marco da passagem de um estágio de um povo. A história conta que cada família do povo hebreu que estava escravizado pelos egípcios deveria imolar um cordeiro para o sustento da casa e passar o seu sangue nos umbrais das portas para serem livres do mal que sobreviria. O novo testamento, uma visão cristã, também traz a ideia de uma passagem para uma nova vida. De forma parecida através de um sacrifício de amor Jesus Cristo se tornou o próprio cordeiro, mas um cordeiro enviado de Deus que ressuscita ao terceiro dia. Libertando aos que creem também de um mal, os próprios erros.

A ideia do ovo veio de outras crenças de várias partes do mundo, que acreditavam que o mundo inteiro teria sua formação inicial por meio de um ovo. Algumas civilizações também acreditavam no ovo e no coelho como símbolos de renovação e fertilidade. Outras tinham o costume de enfeitar ovos, fazendo verdadeiras obras de arte. Daí o catolicismo incorporou o ovo, dentre outros, como símbolo da páscoa católica. Já o chocolate na Páscoa, provavelmente, tem muito haver com a revolução industrial e uma produção de chocolate de larga escala da época.

Independentemente das visões o importante é que a Páscoa traz consigo valores importantes que podem ser passados a criança e que podem propor pra nós adultos uma uma verdadeira passagem, um divisor de águas em nossas vidas. Pois muitos nessa época devem estar se endividando para comprar ovos gigantes ou até pequeninos e carérrimos, para fazerem seus filhos, sobrinhos, netos e alunos se empanturrarem de açúcares, gorduras saturadas e parafina. Mostrando que a felicidade está em comprar, comprar e comprar. Então cabe uma mudança na forma de pensar a páscoa.

Em vez de ficar horas na fila de uma loja, passe horas brincando de achar valores no jardim ou em um parque.

Em vez de gastar o dinheiro que não tem, mostre aos pequenos a importância de se economizar para comprar algo gostoso de vez em quando.

Em vez de se engalfinhar com outros pra conseguir um ovo inteiro em algumas lojas, mostre aos pequenos que um ovo de chocolate pode ser algo legal, mas a maneira como agimos para conseguir o ovo deve ser mais legal.

Em vez de andar durante horas pra achar um ovo em específico, ande menos e compre ingredientes para fazer sua própria sobremesa.

Em vez de entupir a criança de gorduras, açúcares e parafina, faça seu próprio ovo com menos açúcar e mais amor.

Em vez de entupir a criança de presentes, faça cupcakes junto com ela e distribua a quem nada vai receber.

Em vez de intolerância religiosa, respeite o outro pra ter a oportunidade de compartilhar o que realmente acredita.

Em vez de criticar a religião do outro, veja o que pode tirar de bom pra sua própria crença, pra sua vida.

Em vez de crucificar o coitadinho do coelho que entrou na história de gaiato incentive a criança a se parecer com ele e comer verduras, frutas e legumes.

Em vez de ficar falando pras pessoas o que fazer, passe tempo com a família.

Pensando nisso me deu fome, acho que vou ali comer uma bacalhoada da sogra…

Um abraço!

Feliz Páscoa!

Por Glaucione de Laet
Fotos: Shutterstock

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Uma Educação para o Olhar

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Educar  é mostrar a vida a quem ainda não a viu. O educador diz: Veja! – e, ao falar, aponta. O aluno olha na direção apontada e vê o que nunca viu. Seu mundo se expande. Ele fica mais rico interiormente, e, ficando mais rico interiormente, ele pode sentir mais alegria e dar mais alegria – que é a razão pela qual vivemos.

Já li muitos livros sobre psicologia da educação, sociologia da educação, filosofia da educação – mas, por mais que me esforce, não consigo me lembrar de qualquer referência à educação do olhar ou à importância do olhar na educação, em qualquer deles.

A primeira tarefa da educação é ensinar a ver. É através dos olhos que as crianças tomam contato com a beleza e o fascínio do mundo. Os olhos têm de ser educados para que nossa alegria aumente.

A educação se divide em duas partes: educação das habilidades e educação das sensibilidades. Sem a educação das sensibilidades, todas as habilidades são tolas e sem sentido. Os conhecimentos nos dão meios para viver. A sabedoria nos dá razões para viver.

Quero ensinar as crianças. Elas ainda têm olhos encantados. Seus olhos são dotados daquela qualidade que, para os gregos, era o início do pensamento: a capacidade de se assombrar diante do banal.

Para as crianças, tudo é espantoso: um ovo, uma minhoca, uma concha de caramujo, o voo dos urubus, os pulos dos gafanhotos, uma pipa no céu, um pião na terra. Coisas que os eruditos não veem.

Na escola eu aprendi complicadas classificações botânicas, taxonomias, nomes latinos – mas esqueci. Mas nenhum professor jamais chamou a minha atenção para a beleza de uma árvore, ou para o curioso das simetrias das folhas.

Parece que, naquele tempo, as escolas estavam mais preocupadas em fazer com que os alunos decorassem palavras que com a realidade para a qual elas apontam. As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor. Aprendemos palavras para melhorar os olhos.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada veem. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Quando a gente abre os olhos, abrem-se as janelas do corpo, e o mundo aparece refletido dentro da gente.

São as crianças que, sem falar, nos ensinam as razões para viver. Elas não têm saberes a transmitir. No entanto, elas sabem o essencial da vida. Quem não muda sua maneira adulta de ver e sentir e não se torna como criança jamais será sábio.

Texto: Rubem Alves
Fotografia: Pinterest

Multiplica os teus olhos

olharRenova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.

Cântico 13
Cecília Meireles
Foto: Internet

 

 

O que aprendi com a história do filme: O Quarto de Jack

Por Glaucione de Laet

A história começa com uma das expressões mais lindas do mundo Era uma vezEra uma vez antes de eu chegar, você só chorava o dia inteiro vendo tv e eu desci da claraboia até o quarto, e eu estava te chutando por dentro bum,bum,bum. E daí eu saí no tapete com os olhos bem abertos e você cortou o cordão e disse olá Jack

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No domingo passado estava assistindo ao Oscar e torcendo muito por um filme que assisti e gostei: Room, no Brasil ele ganhou o nome de O quarto de Jack. Ele é baseado num romance da escritora Emma Donnoghue e adaptado pela própria autora. No fundo eu sabia que ele não iria ganhar como melhor filme concorrendo com os outros filmes que também eram muito bons. Embora, na categoria de melhor atriz, eu poderia apostar que a protagonista (Brie Larson) seria a campeã. O que aconteceu e me deixou muito feliz. O ator mirim Jack (Jacob Tremblay) também merecia uma indicação por sua atuação. O filme conta a história de Joy uma adolescente que foi sequestrada por um homem chamado Nick (Sean Bridgers). Ela passa sete anos confinada em um quarto no quintal da casa dele. No quarto que mais parece um barraco, a única vista pra fora é de uma claraboia (janelinha de vidro que fica no teto). Sendo privada de sua liberdade, de seu próprio corpo e de sua vida. Lá ela tem um filho com nick, o Jack, nele ela encontra as forças necessárias para ser a melhor mãe do mundo, dada as circunstâncias. O drama é pura emoção do começo ao fim, mesmo quando você acha que o clímax chega a história volta a ter outros dramas. Ele me emocionou muito pelo fato de contar uma história baseada em fatos reais, mas ainda mais por trazer o universo infantil de uma forma tão encantadora e tão forte ao mesmo tempo. O que percebi no filme O quarto de Jack em relação ao olhar de uma criança e o olhar de uma mãe, que por instinto, sabe o que é melhor pro seu filho, compartilho.

  • É preciso reinventar um mundo mais otimista quando em nosso mundo não há perspectivas.

  • Não importa onde você esteja, sua criança te dá forças pra você suportar a situação.

  • Fazer alongamento e exercício físico todos os dias, mesmo sem espaço.

  • Fazer carinho sempre.

  • Se não possuímos tudo o que queremos podemos usar a criatividade.

  • Fazer coisas gostosas juntos.

  • Uma mãe pode alfabetizar seu filho.

  • Pode-se dar pequenas tarefas pras crianças desde cedo.

  • Ensinar com atitudes que não devemos pensar muito na dor “se você não liga, não importa”

  • Não precisamos ler somente livros infantis pras crianças.

  • Quando você canta com amor e conta histórias com sua alma, ela alimenta a alma do outro. “você é a melhor para ler histórias e cantar canções ”

  • As coisas podem não existir em seu mundo, mas a companhia de quem amamos é que mais importa. “mas eu e você existimos”

  • Criar um universo paralelo ao mundo real é uma alternativa para que a criança seja poupada de uma situação real de dor profunda.

  • Falar a verdade da maldade do mundo quando for necessário.

  • Dar as coordenadas detalhadas à criança, mesmo que ela não siga da mesma forma, acreditando que no final vai dar tudo certo.

  • Não se pode impedir as malcriações, mas pode-se confrontar, dar um tempo pra assimilar, abraçar e perdoar sempre que for preciso.

  • Os pequenos podem dizer que você é chato e que te odeia, quando contrariados, porém a semente plantada germina mesmo com dor. “Eu odeio você!”

  • Na hora certa a mãe apresenta o mundo, prepara a criança pra o mundo e mesmo morrendo de medo ela quer que o filho veja o mundo, mesmo que a liberdade também seja difícil de conviver. “Você vai amar o mundo”

  • Se você já acha que fez tudo pelo seu filho, não se engane, ainda é só o começo.

  • Muitos vão te criticar “isso foi o melhor pra ele?” e as críticas das pessoas podem te ferir muito até quase te matar, se não se cuidar. Mas continue tentando fazer o melhor e continue o caminho, a missão.

  • As coisas simples são importantes para os pequenos. Seja uma aranha na teia, o amigo imaginário, um labirinto de rolo de papel higiênico, ver uma pareidolia na tomada, as brincadeiras de sombra, imaginar lunetas no fundo de um copo, os desenhos, um colar de casca de ovo ou um barquinho de papel tudo pode ter significado.

  • É evidente que não se pode passar todo o tempo com uma criança, mas que não seja preciso que te tranquem num quarto para que você passe um tempo de qualidade com os pequeninos.

tem tanto lugares no mundo, tem menos tempo porque o tempo tem que ser espalhado por cima de todos os lugares como manteiga. Só o que as pessoas dizem é depressa, vamos logo, ande mais rápido, Termine já, o quarto era bom porque a mãe estava sempre lá”

O Pequeno Príncipe e seu olhar cativante

Por Glaucione de Laet

A satisfação de ler o livro O Pequeno Príncipe de Antoine de saint-Exupéry começa na dedicatória quando o autor pede perdão às crianças por dedicar o livro a uma pessoa grande, Léon Werth. E depois de enumerar os motivos da dedicatória ele corrige dedicando sua obra a criança que Léon já fora um dia. Isso me fisgou nas primeiras páginas “todas as pessoas grandes foram um dia crianças – mas poucas se lembram disso”. Como adulta me esqueço várias vezes que já fui criança, embora queira sempre me lembrar, é como se o olhar do adulto fosse ficando cada vez mais embaçado. Eu li o pequeno príncipe pela primeira vez no ano passado, depois de grande, e descobri que ele é um livro pra gente grande e pequena. Aprendi muito com ele e pude perceber o olhar da criança através da história.

O início é muito real pra mim que amo desenho de criança e sempre tento interpretá-los na minha cabeça de gente velha. As partes que falam dos desenhos são as minhas preferidas e são um verdadeiro convite ao aprendizado da infinidade de coisas que passam na mente infantil. A imagem da jiboia que engoliu um elefante (que as pessoas grandes achavam ser um chapéu e que sempre o menino de seis anos tinha que explicar do que se tratava) demonstra como nada é obvio quando se trata do olhar de uma criança.

Acho que se a pergunta fosse feita pra mim poderia dizer também que o desenho se tratava de um chapéu. E considero completamente normal para um adulto não entender os desenhos de uma criança, pois temos a “necessidade de explicações detalhadas”. Porém a parte em que o menino é aconselhado a deixar de lado os desenhos considero uma atitude desprezível. O desenho é uma das formas mais real e significativa de uma criança se expressar, tirar isso dela é um crime. Por que não se pode gostar de geografia, história, matemática, gramática e também de desenhar? Por que temos que abandonar algo que gostamos por causa da opinião de outras pessoas? Muitas vezes o olhar do outro interfere no nosso próprio olhar, ora para o bem, ora para o mal. A firmeza e proteção da nossa visão definirá o nosso caminho.

A súbita aparição do pequeno príncipe ao piloto no deserto e o decorrente diálogo entre os dois revelam características interessantíssimas das crianças e de nós adultos. Uma delas é a persistência da criança quando se trata de algo que ela quer muito. Nessa parte do livro o principezinho faz vários pedidos ao piloto para que ele desenhe um carneiro. O piloto por sua vez queria saber primeiro da onde aquele ser extraordinário havia saído. Mas percebeu que só descobriria sobre o menino se desenhasse o carneiro. A persistência de uma criança é algo irritantemente e apreciadamente incrível. Quando elas querem algo elas insistem, insistem e insistem até conseguir. “A deixa mãe, deixa? Por favor? Eu só vou te pedir isso e nada mais” “Ah pai eu prometo que só vou te pedir dessa vez”. O adulto quer se ver livre da situação e ceder acaba sendo a saída mais fácil. Entretanto, nem sempre é a melhor saída. Dar tudo o que a criança pede sem passar por um crivo apurado pode ser uma armadilha que prejudicará muito a criança. A criança pode ser incrivelmente maravilhosa e temos muito o que aprender com ela, mas ainda é só uma criança e precisa de um adulto que ame de maneira tal a dizer a ela a palavra não quando necessário. Mas no caso da história era algo simples que era muito bom para o pequeno príncipe . Ainda bem que o piloto disse sim e foi o início de uma linda história de amizade. E você? Já disse sim ao encanto do principezinho? E já leu a história? Eu disse sim e depois de velha e me apaixonei.

“Quando o mistério é impressionante demais, a gente não ousa desobedecer.”