Bienal do Livro e Suas Loucuras

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O que faz uma pessoa em sã consciência de livre espontânea vontade organizar e se responsabilizar por um grupo de crianças e adolescentes em uma Bienal do livro com uma multidão junto? O que faz as pessoas esperarem o evento abrir? Pegarem ônibus, metrô, carro e enfrentarem um trânsito de lascar? O que faz um pai, uma mãe ou um parente, um amigo trazer a meninada pra andar de estande em estande procurando o livro dos sonhos e o autor preferido? O que faz um Ser esperar uma ou duas horas o horário de pegar a senha para ver seu(sua) venerado(a) autor(a)? O que faz uma pessoa fazer uma inscrição para querer fazer um seminário sobre leitura? O que faz uma pessoa esperar numa fila quilométrica para entrar na Bienal?

As pessoas que amam esse universo saberão a resposta. O que faz isso é a loucura. Sim são loucos. Todos! E até os que caem na história de gaiato acompanhando amigos no evento acabam sendo inseridos na maravilhosa loucura. A loucura da leitura. Haviam autores de vários gêneros e livros de vários assuntos, mas quando o tema literário vinha a tona a loucura era muito passional. Uma viagem louca, sensacional e fantástica. E quando vamos a uma Bienal percebemos que não somos os únicos loucos. Nos identificamos com o hospício todo, já na fila para entrar fazemos amizades partilhando da mesma paixão. A paixão de ler está no DNA, tatuada na pele, pode ter sido implantada pelos pais que também adoravam ler. Pelos professores que apresentavam os livros, ou por contadores que nos contavam histórias. Pode ter sido introduzida em um momento em que precisávamos dar as mãos aos livros, pois não tínhamos a quem dar as mãos. Quem sabe agregada em um tempo de delicioso ócio. Ou foi nos apresentada como uma nova amiga por velhos e bons amigos.

A verdade é que não nos consideramos loucos, e sim os outros, que não são como nós. Que não valorizam aquilo que amamos. Que dizem “Ah eu não vou na Bienal, tem que pagar pra entrar.” “Acho isso um absurdo temos que pagar pra entrar e pra comprar livros lá dentro”. Já paguei para entrar em lugares, nos quais tive que pagar  dentro do local pra consumir. Não ouvi ninguém reclamando. Entender o mercado literário é saber que literatura e dinheiro, na maioria das vezes, não são palavras sinônimas. E por causa de pessoas que consideram o livro e tudo relacionado a ele como supérfluo, que muitos gênios das histórias lutam por sua sobrevivência no meio literário. Porque um autor não sobrevive sem um leitor. E um leitor faz o que ele faz de melhor. Ele lê.

Pra quem vai em bienais, pra quem não vai mas ama ler. E pra todos que são loucos por literatura, vocês não estão sós. Que vocês continuem indo nas bienais, que  os pais levem os filhos, que os tios levem  sobrinhos, que os avós levem os netos, que os professores levem os alunos. Que os leitores façam discípulos. Que os contadores contem histórias, que os poetas declamem poesia, que  os atores apresentem a palavra, que blogueiros falem dos livros, que os autores alimentem nossa mente e imaginação. Que como crianças mergulhemos por inteiro no fantástico mundo da literatura.

Texto: Glaucione de Laet 
Foto: Fotógrafo(a) desconhecido(a)

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Deixar Uma Câmera Fotográfica Na Mão de Uma Criança?

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Deixar uma câmera na mão de uma criança?
Nem pensar de jeito nenhum

Emprestar meu celular pra ele tirar foto?
Você está ficando doida?

Tanta coisa pra ensinar vai ensinar criança a tirar foto?

Esses questionamentos sempre passam por mentes que não consideram a criança como digna de confiança ou capaz de aprender. A criança pode muitas coisas se considerarmos que ela é capaz. Mas se não darmos a chance da criança tentar, nunca saberemos o poder surpreendente de autonomia de um pequenino. É claro que dependendo da idade temos que ter algumas ressalvas por conta da viabilidade da atividade e do grau da percepção infantil. Porém não temos o direito de privar a criança do contexto tecnológico no qual ela JÁ está inserida.

A minha sobrinha desde pequena sempre gostou de tirar fotos. Por que? Porque ela vive num mundo em que os pais, os avós, os tios, parentes, professores e amigos tiram fotos. Se todos  tiram fotos dela, por que ela não pode tirar? A minha cunhada e eu sempre demos a minha sobrinha a chance de tirar as próprias fotografias. Não digo que foi fácil. Tinha momentos que ela queria correr com a câmera na mão, tinha momentos que a câmera caía sim. E eu como tia (que só tinha uma câmera) via meu coração disparar, e novamente eu tinha que dizer a ela do cuidado que ela teria que ter com a câmera se quisesse continuar a tirar suas belas fotos. Apreciávamos o processo de aprendizado dela e no divertíamos com seus achados na lente imperceptíveis aos olhos adultos.

O olhar dos pequenos sempre se tornam pras coisas sensacionais que nós adultos não prestamos atenção. Quando entregamos uma câmera pra uma criança, ensinamos como utilizá-la (às vezes é o contrário), damos liberdade pra ela explorar o equipamento, e tirar foto do que quiser, nos tornarmos agentes mediadores do conhecimento e expectadores de pequenas felicidades.

Se você nunca entregou uma câmera pra uma criança peço que o faça e veja o quanto ela irá te surpreender. Mas se mesmo assim você sente insegurança de confiar a câmera aos pequenos, abaixo enumerei algumas dicas:

  • Mostre a criança sua câmera, converse com ela sobre as funções dos botõezinhos de ligar e desligar, o porquê da cordinha ao lado da câmera, a lente, onde se coloca o dedinho pra ele não aparecer na fotografia.
  • Em um primeiro momento deixe a criança manusear a câmera apertando os botões junto a você, peça que repita as funções de cada um pra ver se realmente entendeu. Mas não demore muito criança perde o interesse se fica chato.
  • Deixe que a criança fotografe o que quiser: bichinhos, pés, amigos, você, flores, texturas deixe a criatividade dela guiá-la.
  • Permita que ela explore o equipamento com curiosidade e o interesse dela fará com que você se aprofunde no assunto e ensine outras funções mais complexas como a do zoom por exemplo.
  • Depois que a criança tirar bastante fotos coloque os arquivos em um computador ou televisão para que suas fotos possam ser apreciadas.
  • Não critique jamais a criança. Até as fotos mais bizarras (quem nunca as tirou) devem ser consideradas com respeito. Pois a maneira como se conduz a experiência pode bloquear o aprendizado.
  • Se quiser aprofundar no assunto dê dicas para que as fotografias fiquem mais bonitas:
    Quanto mais parada a mãozinha ficar mais nítida a foto ficará. Quanto mais se aproximar, maior o objeto da foto ficará…
  • Faça perguntas, analise junto com a criança as produções delas:
    Por que será que o rostinho do colega não apareceu na foto? Por que será que a foto ficou tão clara? Ou escura?
  • Faça experiências:
    Vamos tirar a foto dessa forma (invente) pra ver como ficará?
  • Peça sugestões:
    Como a foto ficará mais legal?
  • Se você tiver mais de uma criança e só uma câmera faça combinados com elas sobre a ordem e o tempo de cada utilizar a máquina fotográfica.
  • Ouça as crianças. Elas tem a resposta para quase tudo.

Boa experiência!

Se você quiser me conte depois. Vou ficar feliz em saber que a minha experiência ajudou você de alguma forma.

Texto: Glaucione de Laet 
Fotografia: De um(a) fotógrafo(a) que eu queria saber o nome


O Olhar De Um Segundo

Gau de Laet

Ele chega e não olha pra você
Você quer o seu olhar
E não consegue sua atenção
Dói o peito, dói o coração

Mas todos estão concentrados
E ele aparentemente dispersado
Você pensa e fica desconsolado
O que estou fazendo de errado?

Ele tapa os ouvidos, não quer ouvir
Sons que você não consegue distinguir
Ele não consegue sequer suportar

Quer correr, quer pular sem parar
Por alguns instantes quer balançar
E em seu próprio eixo girar, girar
Uma fase que parece nunca passar

Dois choros, um dele e um seu
Um parecido com pirraça
Outro escondido na couraça

Aí você descobre uma maneira
Um detalhe que faz toda a diferença
Você é um estrategista
Você ama um autista

Ele fica deslumbrado
Sorri e até dá gargalhada
Fica horas compenetrado

E de repente sem se dar conta
Os olhos dele se cruzam com os seus
Olhos nos olhos, conexão
Uma vitória, satisfação!

Nem que seja por um segundo
Um olhar que transborda esperança
E vale mais que tudo no mundo!

autismo 2