Cabo de guerra

criancas-brincando-20131023-001 (iStockphoto/Getty Images)

  Você já brincou de cabo de guerra? Já brincou meninos contra meninas? E de futebol já brincou?  Se você brincou com certeza teve muitas alegrias e joelhos ralados na infância, mas deixa eu te contar uma história.

  Em meados de abril, no parque, uma menina me procurou muito chateada, pois seu colega não tinha deixado ela brincar de futebol. Ele disse pra ela que menina não brinca de futebol. Chamei o menino para conversar e disse a mesma frase, em forma de pergunta. Menina não brinca de futebol? Ele com menos certeza no olhar disse como bom mineirinho: É uai! Olhei pra ele e disse, você nunca viu uma menina jogar bola? Ele disse que não. E para encurtar a história eu disse pra ele que menina podia brincar de futebol e os dois foram brincar juntos.

  No outro dia,  no momento de leitura de um livro, a mesma menina que tinha sido excluída da brincadeira por ser menina, disse a frase “menino não chora”. Fechei o livro e fomos conversar. Perguntei se eles já tinham visto um menino ou homem chorar. E alguns contaram suas experiências: “eu já vi meu pai chorar na igreja”, “quando eu nasci o papai chorou de emoção” “eu já chorei na escola”. Diante dessas experiências surgiram várias outras. As crianças melhoraram o relacionamento entre elas e construíram vários conhecimentos. E mais uma vez as crianças me ensinaram.

  Aprendi com essa lição que aquele que exclui, às vezes, ou quase sempre, já foi excluído e o diálogo, e a busca por conhecimento é sempre o melhor caminho.

  Nos dias atuais, nos quais existem extremos tentando puxar a corda brincando de cabo de guerra é necessário deixar por um momento os memes, os vídeos engraçados e os assustadores também e ir mais a fundo na questão, estudar em fontes fidedignas e imparciais se for preciso.

  Penso assim, pois não quero ver as meninas serem excluídas do futebol, não quero ver os meninos engolirem o choro,  com frases já encrustadas neles como “ quem chora é saco de batatas”. Não quero ver professoras serem discriminadas por exercerem seu trabalho da melhor maneira possível. Não quero ver heróis e heroínas, autores de histórias serem perseguidos como vilões nas redes sociais. Pensar antes de postar algo, conhecer a fundo antes e conversar antes com pessoas que pensam diferente de você é fundamental.

  Eu sei que é difícil conversar, quando quer mostrar seu ponto de vista para alguém que grita, ou simplesmente ridiculariza suas ideias, eu confesso que em alguns casos prefiro agir em vez de falar, nem que seja com minha ausência. Não é que eu solto a corda. Eu mudo de estratégia.

  Simplesmente tem a ver com enxergar outras possibilidades. Eu sei que escolher outras possibilidades também é escolher outros lados e em última instância se só tivermos dois lados pra escolher temos que nos posicionar. Mas a vida não é um clássico de futebol, que se escolhe um lado e fica nele “pra sempre”, também não pode ser delegada a um dito “salvador” da pátria. Pois educação, saúde, meio-ambiente, política e demais temas não são brincadeiras, é da má gestão de todos eles que nasce o pobre, a viúva e o órfão.  E quem já brincou de cabo de guerra sabe que a corda pode arrebentar e todos caírem e se machucar muito.

   E até pra corda do cabo de guerra existem outras brincadeiras, como pular corda por exemplo que é um ótimo exercício por sinal. Ou quem sabe depois a brincadeira mude, e vamos brincar de futebol, mas só se todos puderem brincar.

Texto: Gau de Laet

Foto: (iStockphoto/Getty Images)(iStockphoto/Getty Images)

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