22 De Abril

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O dia que nasci,

Mês que rompi

Como presente vim

E também recebi

 

Dia de sentimento

Descobrimento

Autoconhecimento

Discernimento

 

Quem sou eu?

Quem és tu?

Um Brasil descoberto

Nação a céu aberto

 

Um lugar de imensidão

Um lugar em extinção?

 

Florestas, povos, etnias

Gentes, meios e ambientes

Terra dos  messias

 

Brasil, que ainda não descobri

Brasil, de gente e bicho que não vi

 

Tu é assim como eu?

Profundo, guardado

Doador, explorado

Alegre, escancarado

Vencedor, amado

 

Tento descobrir a mim mesmo

Tentam dominar os seus a esmo

 

22 é teu dia

22 é meu dia

Somos 2, 2

Baião de 2

 

Quando eu era criança

O 22 eram dois patinhos

O abril era brigadeiro

Hoje, gatilhos e tiroteio

 

Hoje dia 22 de abril

Ainda moro com você

Tento fechar os olhos

Ver outros de você

 

Estou em casa

E tenho medo

Na gigante terra

Me apequeno

 

E aí exatamente

Que esqueço

Esquecimento

Descobrimento

 

Que no dia 22 de abril

Não te descobriram

Eles não te viam

 

Será que um dia vão conseguir ver?

Texto: Gau de Laet

Foto: autor desconhecido

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Cabo de guerra

criancas-brincando-20131023-001 (iStockphoto/Getty Images)

  Você já brincou de cabo de guerra? Já brincou meninos contra meninas? E de futebol já brincou?  Se você brincou com certeza teve muitas alegrias e joelhos ralados na infância, mas deixa eu te contar uma história.

  Em meados de abril, no parque, uma menina me procurou muito chateada, pois seu colega não tinha deixado ela brincar de futebol. Ele disse pra ela que menina não brinca de futebol. Chamei o menino para conversar e disse a mesma frase, em forma de pergunta. Menina não brinca de futebol? Ele com menos certeza no olhar disse como bom mineirinho: É uai! Olhei pra ele e disse, você nunca viu uma menina jogar bola? Ele disse que não. E para encurtar a história eu disse pra ele que menina podia brincar de futebol e os dois foram brincar juntos.

  No outro dia,  no momento de leitura de um livro, a mesma menina que tinha sido excluída da brincadeira por ser menina, disse a frase “menino não chora”. Fechei o livro e fomos conversar. Perguntei se eles já tinham visto um menino ou homem chorar. E alguns contaram suas experiências: “eu já vi meu pai chorar na igreja”, “quando eu nasci o papai chorou de emoção” “eu já chorei na escola”. Diante dessas experiências surgiram várias outras. As crianças melhoraram o relacionamento entre elas e construíram vários conhecimentos. E mais uma vez as crianças me ensinaram.

  Aprendi com essa lição que aquele que exclui, às vezes, ou quase sempre, já foi excluído e o diálogo, e a busca por conhecimento é sempre o melhor caminho.

  Nos dias atuais, nos quais existem extremos tentando puxar a corda brincando de cabo de guerra é necessário deixar por um momento os memes, os vídeos engraçados e os assustadores também e ir mais a fundo na questão, estudar em fontes fidedignas e imparciais se for preciso.

  Penso assim, pois não quero ver as meninas serem excluídas do futebol, não quero ver os meninos engolirem o choro,  com frases já encrustadas neles como “ quem chora é saco de batatas”. Não quero ver professoras serem discriminadas por exercerem seu trabalho da melhor maneira possível. Não quero ver heróis e heroínas, autores de histórias serem perseguidos como vilões nas redes sociais. Pensar antes de postar algo, conhecer a fundo antes e conversar antes com pessoas que pensam diferente de você é fundamental.

  Eu sei que é difícil conversar, quando quer mostrar seu ponto de vista para alguém que grita, ou simplesmente ridiculariza suas ideias, eu confesso que em alguns casos prefiro agir em vez de falar, nem que seja com minha ausência. Não é que eu solto a corda. Eu mudo de estratégia.

  Simplesmente tem a ver com enxergar outras possibilidades. Eu sei que escolher outras possibilidades também é escolher outros lados e em última instância se só tivermos dois lados pra escolher temos que nos posicionar. Mas a vida não é um clássico de futebol, que se escolhe um lado e fica nele “pra sempre”, também não pode ser delegada a um dito “salvador” da pátria. Pois educação, saúde, meio-ambiente, política e demais temas não são brincadeiras, é da má gestão de todos eles que nasce o pobre, a viúva e o órfão.  E quem já brincou de cabo de guerra sabe que a corda pode arrebentar e todos caírem e se machucar muito.

   E até pra corda do cabo de guerra existem outras brincadeiras, como pular corda por exemplo que é um ótimo exercício por sinal. Ou quem sabe depois a brincadeira mude, e vamos brincar de futebol, mas só se todos puderem brincar.

Texto: Gau de Laet

Foto: (iStockphoto/Getty Images)(iStockphoto/Getty Images)

Abril literário, abriu o imaginário. Meu aniversário!

catv_pet_ara_mg_ser_cri_20100709_0149“Abril chegava, tingindo o céu de azul, de ponta a ponta. As madrugadas aconteciam mais transparentes. O sol seguindo os desenhos das telhas, bordava sianinhas no interior da casa”

Amo abril, por várias razões e também pelo clima tão poeticamente descrito acima por Bartolomeu Campos de Queirós. Abril é pura poesia!

Abril é o mês mais lindo de todos na minha opinião, primeiramente porque foi o mês que eu nasci e isso traz um tratado místico entre Deus e eu que me renova a cada ano. É como se Ele Autor maior mostrasse para as pessoas ao meu redor a minha história que Ele já estava escrevendo desde a barriga da minha mãe e desde antes da minha mãe nascer. Bem antes…

Abril é precioso, pois é o mês mais literário do ano! É um mês de celebração dos livros, nossos passaportes a viagens fantásticas e extraordinárias, nossos convites a nossa imaginação. Tenho um amigo que diz que abril deveria ser escrito com “u”, pois a abertura desse mês é tão maravilhosa e incrível, um mês com inúmeras oportunidades que podem ser aproveitadas. Ler nos abre tanto a mente, que começo a pensar que a mudança do “l” pelo “u” deveria ter entrado no último Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

No dia 2 de abril comemora-se o Dia Internacional do Livro Infantil, a data foi escolhida por se tratar do dia de nascimento de Hans Christian Andersen, uma forma de homenageá-lo por ser um dos primeiros a ter um olhar de criança no campo literário e adaptar várias histórias para o público infantil. No dia 18 desse lindo mês comemora-se o Dia Nacional do Livro, uma data também pensada para homenagear o escritor brasileiro Monteiro Lobato. Autor e grande propulsor da literatura no país, queria fazer livros onde as crianças pudessem morar neles. Confesso que amo seus personagens e embora tenha ressalvas com algumas questões de suas obras acredito que ninguém é perfeito e que as pessoas se constroem, se reeditam. Escrever as próprias histórias é tarefa de diária de cada um de nós. Os autores contribuíram de maneira significativa para a evolução literária no país e no mundo e a construção do literário ainda se move e se constrói conforme nós seres humanos vamos evoluindo.

É tão bacana saber que em algum lugar e época existiu alguém que pensou na criança. Viu o que a criança mais gostava e adaptou o livro para uma categoria, não inferiorizada, mas mais sensível as habilidades dos pequenos. Feliz é quem olha, entende, ou pelo menos tenta entender o olhar das crianças.

A criança pode se interessar por qualquer livro, assim como qualquer grandão pode se apaixonar por livros infantis (eu sou suspeita). A verdade é que a mágica está no imaginário das histórias, dos contos, das fábulas, das parlendas, lendas, poemas… E se deixamos de nos encantar com o céu, com a natureza, com as pessoas, com a poesia da vida, lentamente nosso olhar estará envelhecendo. Nesse mês que fico mais velha de idade e naturalmente mais nostálgica, meu desejo é que ao contrário eu possa voltar a ser criança, não como O Curioso Caso de Benjamim Button de Fitzgerald Francis Scott, que nasce velho e volta a ser criança, mas como no caso da letra da música Era uma vez de Kell Smith, pois um joelho ralado sempre vai doer menos que um coração partido. Ao crescermos nosso coração se parte várias vezes e até partimos corações, mas quando criança também. A diferença é que, quando pequenos, a vontade de brincar é tão grande que ele se cura rápido. Mais difícil que o envelhecimento do corpo é o envelhecimento da capacidade de brincar, de imaginar e de sonhar. Que possamos não só em abril, não só perto do nosso aniversário, mas sempre deixar que nosso imaginário seja cheio de histórias fantásticas e maravilhosas lidas, contadas ou inventadas. E você já leu um livro hoje?

Feliz mês literário!

Feliz imaginário!

Feliz aniversário!

Texto: Glaucione de Laet

Foto: Crianças no Vale do Jequitinhonha - © Daniel De Granville, 2010

Você sabe o valor que tem um herói para uma criança?

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Recentemente, vi um trailer de um filme e fiquei fascinada. Era um filme de ação, que quando me deparei pensei comigo necessito assistir esse filme na tela grande do cinema e assim que ele estrear. Não era um filme parecido com os temas que já comentei por aqui. E não era específico de criança ou da infância. Era um filme de super-heróis.  Mas não eram heróis comuns dos que estamos acostumados assistir na mídia, eram heróis negros. Aqueles incomuns que vemos raramente na telinha, e vemos todos os dias e com frequência em vários lugares por onde vamos, inclusive maioritariamente no Brasil. Sim, estou falando do filme Pantera Negra. Não vou fazer resenha do filme, pois já devem ter várias por aí e não é foco desta postagem. Também não vou dar spoiler, embora milhões de pessoas já terem assistido, e o filme já ter se tornado campeão de bilheteria, você que está lendo esse texto pode ainda não ter tido a felicidade de ver.

O mundo precisa ter mais e mais filmes como Pantera Negra, pois heróis negros no cinema são importantes e necessários. Poderia citar várias razões sobre a importância, mas vou dizer uma razão pela qual é preciso existir filmes assim. Pelo fato de que uma heroína ou um herói possuem um valor enorme na vida de uma criança. E um herói que tem as mesmas características físicas de uma criança que o assiste? Ah isso eu não consigo mensurar! Um valor que perpassa uma trajetória de vida que começa na infância e vai até a vida adulta. Então te pergunto novamente:  Você sabe o valor que tem um herói para uma criança? Você consegue medir?

A heroína e o herói são aqueles que tem poder, que vencem o mal, ou que criticam o status quo, são aqueles que lutam sem parar pelo que acreditam. Eles passam por dificuldades, possuem defeitos, medos, mas não desistem. São símbolos, pura inspiração. Ainda que de maneira fantasiosa eles representam algo importantíssimo na realidade da vida das crianças. São os exemplos que as crianças querem seguir. Modelos que trazem valores incalculáveis.

Na família, a princípio e geralmente, as crianças se espelham no pai e na mãe e até a psicologia aborda temas em que o desenvolvimento das meninas e meninos dependem muito da relação que as crianças possuem com esses primeiros heróis. Mas e quando esses primeiros heróis são discriminados pela sociedade? E quando o tom da pele e traços do rosto definem o valor de uma pessoa? São questões que influenciam na forma como as crianças negras se veem. E a mídia, que tem um alcance enorme, deveria dar oportunidades igualitárias para todos e não reforçar preconceitos.

A televisão não produz conteúdo rico com as crianças negras, pelo contrário, muitas vezes as personagens das pessoas negras sempre são as que possuem cargos menos valorizados na sociedade. Nos desenhos a Tia Nastácia é a empregada que fala tudo errado (nada contra o trabalho e falar “errado”, mas no caso, considero pejorativo). O Saci, fruto do folclore é o menino que fuma e só apronta. Passaram-se anos e os preconceitos de uma sociedade escravista permanecem. Não posso negar a contribuição de Monteiro Lobato, autor de Sítio do Picapau Amarelo, para a literatura brasileira, mas ele, fruto da sociedade da época não a questionou, ele a representou tal qual ela era, nessa questão tão importante. E atualmente nossa sociedade continuará sendo discriminatória se não houver representatividade igualitária entre brancos e negros.

Os pequenos não se veem, não se identificam fisicamente com os personagens e quando o mundo de dentro não se conecta com o mundo de fora ou ele se fecha pro mundo, ou se rebela, ou simplesmente nega o seu próprio mundo interior. Negar a si mesmo é muito triste para uma criança que ainda nem teve a oportunidade de se descobrir. Ao ver esse filme, o qual encorajo a todos verem, vejo esperança. É bom que o mundo esteja mudando e filmes como esse estejam tendo espaço. E que venham muitos outros, mal posso esperar pelas animações do Pantera Negra. E que nos canais abertos os pequenos possam se ver bem grandes, personagens com papéis principais e não coadjuvantes nos desenhos animados, heróis e não somente vilões. E na arte as crianças negras possam todas as manhãs ou tardes se sentirem representadas.

E que os heróis e heroínas negras, apesar de estarem sendo silenciados continuem presentes, vivos dentro de cada um de nós e nas ações de cada um de nós.

Glaucione Caetano

O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética… O que me preocupa é o silêncio dos bons.  Martin Luther King

 

Foto: Passion Project, da Looks Like Me

Mais informações sobre o projeto: aqui

 

 

 

 

Com Olhos De Criança Francesco Tonucci

20160619_092221-1A primeira vez que me deparei com a linguagem divertida e crítica do cronista Francesco Tonucci foi numa prova de concurso. Se tratava de um desenho, uma casa com o formato de uma grávida, mas que dava a entender ser uma escola, pois nela crianças entravam com suas lancheiras e bagagens. Ou seja, uma imagem louca e questionadora. No momento denso e tenso não pude me deliciar por muito tempo na imagem, tinha muitos neurônios para queimar, mas confesso que O Cara me conquistou de primeira. Ele é um psicopedagogo e pensador italiano que agregou suas reflexões sobre o tema educação e sobre a forma como as crianças apreendem o mundo à fantástica linguagem dos desenhos. Frato, como também é conhecido, é autor de traços que trazem uma crítica embasada, uma ironia que faz pensar e que ao meu ver é muito divertida.

Os quadrinhos de Tonucci surpreendem e acabam trazendo identificação, você acaba lembrando de alguma situação que passou quando era criança, ou de uma vertente de pensamento sobre a infância. Você se vê no texto. Seja na época da infância ou na de adulto que lida com crianças acontece um encontro e um confronto. O que é bom pra quem prefere ser como a música diz uma metamorfose ambulante e triste para quem não cresce com críticas construtivas. Recentemente reli o livro “Com olhos de criança” que reúne os desenhos de Frato e tem tudo a ver com o tema do blog. Um texto delicioso que se degusta como sorvete numa sentada.

O livro dá uma sacudida esperta em nós adultos, em nossas concepções de infância na maneira como achamos que devemos tratar a criança. É provocação e mais provocação. É tipo a música: “Catuca pai, mãe, filho eu também sou da família também quero catucar”, só que no caso temos que acrescentar, tio, tia, avó, avô, professor, coordenador, diretor, psicólogo, políticos, terapeutas e muita gente grande na lista.

Com Olhos de criança é pra quem quer crescer, ampliar o conhecimento sobre a infância, mas também pra quem quer se fazer pequeno, aprender de novo e expandir o olhar com os pequenos.

Texto: Glaucione de Laet 
Foto: acervo pessoal

O Olhar de Menino do Mato de Manoel de Barros

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Manoel de Barros é daqueles poetas que fazem o coração dos amantes dos prazeres do nada vibrar. Se você ama poesia, ama natureza e ama as inutilezas da vida vai se identificar com certeza. Se você é daqueles que precisa do ócio criativo, que contemplar o belo é sua maior alegria e que adora ver o mundo por outra perspectiva, leia Manoel de Barros. Mas se você é daqueles que necessita dar uma desacelerada, ir mais devagar e curtir o caminho sem se preocupar com o rumo, uma dose de Manoel por dia vai te fazer bem. E vou logo avisando, esse poeta não gosta de dar significados as coisas que vê, o lance dele é desver, é ressignificar. Pois a imaginação dele é fértil e livre. Nas palavras dele encontram-se travessuras, desconcertos e absurdos. A visão dele é um ato poético do olhar. Um olhar de criança que cresceu, mas o menino dentro dele não, que cresceu no mato e o mato cresceu dentro dele.

Ele nasceu em Cuiabá, Mato Grosso no ano de 1916 e quase teria feito cem anos se não tivesse tido vontade de agarrar na bunda do vento e ir embora em 2014. No entanto, o bacana de quem cria é que continua vivo na sua criação, mesmo depois que morre. E podemos visitar e revisitar esse menino Manuelzinho em sua obra, com um saber primordial que nos pergunta: Visão é recurso da imaginação para dar às palavras novas liberdades?  Acho que sim. Mas como ele, tenho o privilégio de não saber quase tudo. Apenas imagino que a criança, menino ou menina (mesmo depois de grandes), possui uma forma diferenciada de olhar o mundo. Uma visão de encantamento que usa todos os sentidos para apreender o que está em volta só pelo prazer de viver, de sentir.

Nas palavras do poeta:

É a voz de Deus que habita nas crianças, nos passarinhos e nos tontos. A infância da palavra.

Eu só não queria significar. Porque significar limita a imaginação.

O Pai achava que a gente queria desver o mundo para encontrar nas palavras novas coisas de ver.

A gente gostava das palavras quando elas perturbam o sentido normal das ideias.

Porque a gente também sabia que só os absurdos enriquecem a poesia.

Nosso conhecimento não era de estudar em livros. Era de pegar de apalpar de ouvir e de outros sentidos.

A pergunta do filósofo:

Seria um saber primordial?

Pra nos fazer pensar…

Texto Glaucione de Laet
Fotografia: Autor desconhecido que clicou um poeta enternecido

Mamãe Você é Tão Linda

                                                                                                                       Gau de Laet

Mamãe você é tão linda!
Verdadeiramente
Minha mulher preferida

Mamãe você é tão fofa!
Que descaradamente
Me declaro sua cafofa

Mamãe você é tão meiga
Tão carinhosa e vaidosa
Tão gatinha cheirosa!

Tão amável
Tão mordível
Tão risonha
Tão delicinha

Tão trabalhadora
Tão perdoadora
Tão costureira
Tão cozinheira

Hum…
E sua couve com angu?
E seu arroz com feijão?
Comi tudo sem esperar
A carne acabar de assar

O povo tudo te ama
Meu amigo de tia te chama
Os outros também querem
Acho que todos querem
Só um mucadiquinho
Desse seu gosto docinho

Então digo a todos prestenção!
Essa doçura me pertence
Minha, toda minha,
toda quase minha
por causa de um caçula entrão
que inquilinou seu coração

Mamãe você é tão linda
Tão, tão amorzão
Que até aceito uma divisão

Só porque és tão linda
Sinceramente e sempre
O amor da minha vida

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Texto dedicado a minha amada mãe por Glaucione de Laet
Fotografia: Linda! Gostaria de saber o nome do(a) autor(a)

 

Sal da Vida de Françoise Héritier

IMG_20160428_211033438Amo ir em livrarias e comprar livros sem saber nada sobre eles. E sem expetativas acabo me surpreendendo quando começo minha leitura às cegas. Por mais que a capa, o título, os resuminhos e indicações façam aquela chamada “Você não poderá viver se não comprar esse livro” podemos comprar o livro e não ficarmos satisfeitos com o conteúdo.

Numa destas idas a livrarias trouxe pra casa o livro O sal da vida de Françoise Héritier. Li. E que felicidade! A cada página me identificava mais com o livro, que alegria senti. Confesso que várias vezes me deparei com coisas, lugares, comidas que sequer sabia o que significavam. E você deve se perguntar. Então qual o motivo de tamanho reconhecimento pessoal no livro? E eu te respondo. A linguagem poética de Françoise, sua viagem à infância e mais do que isso, uma revisitação a tudo que seu olhar de criança registrou com o tempo. Através das palavras de Françoise embarcamos juntos com ela no universo de sua vida. Somos levados nas pequenas, deliciosas e importantes coisas que fazem a vida valer a pena.
O livro não advoga de uma ingênua parte da infância como a autora mesmo diz mas, sobre a essência de afetividade e sensibilidade que nos torna humanos. Nada mais é do que uma lista de deliciosas experiências sensoriais que autora vivenciou ou fantasiou (vai saber) ao longo de sua vida e uma breve explicação de como essa lista começou. E é por isso que considero esse livro uma celebração ao olhar dela de criança diante de sua trajetória. Um olhar focado no corpo e nos prazeres que ele proporciona.

A linguagem corporal na criança é visceral, a todo instante as vivências sensoriais são importantes para os pequenos. Com o passar do tempo o adulto esquece de ser feliz, a criança não. Ela faz o que dá prazer. Ela quer correr, mexer, pular, enfim experimentar. O adulto foca, muitas vezes em coisas materiais e se esquece do que faz a alma guardar na memória. Celebrar os sentidos mais e mais é um grande desafio. Você já abraçou alguém hoje? Já brincou? Já leu? Fez o que mais adora? Comeu uma delicinha de dar água na boca? Já conversou com um amigo? Já colocou o esqueleto pra balançar? Tá esperando o quê? A felicidade está aí bem pertinho, deixe o seu corpo senti-la. Aprenda com as crianças elas possuem um temperinho natural, o salzinho da vida, o poder mágico da felicidade! O Sal da Vida te faz viajar na vida de Françoise e na própria vida do leitor, pois traz uma parte interativa onde você é o escritor. Nos faz pensar no que realmente faz a vida valer a pena. Na minha opinião  ler um livro faz a vida valer a pena, mesmo que ele não seja um best-seller e ler o livro da Héritier vale muito a pena.

O mundo existe por meio dos nossos sentidos, antes de existir de maneira ordenada no nosso pensamento, e temos de fazer de tudo para conservar, ao longo da vida, essa faculdade criadora dos sentidos: ver, ouvir, observar, entender, tocar, admirar, acariciar, sentir, cheirar, saborear, ter ‘gosto’ por tudo, por todos, pelo próximo, enfim, pela VIDA.  Fançoise Héritier

Se você quiser comentar sobre o texto, se já leu o livro, ou se deu vontade de ler me fala, vai me encher de felicidade.

Um abraço!

Texto: Glaucione de Laet 
Foto: A foto embaçada é daqui mesmo

Bienal do Livro e Suas Loucuras

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O que faz uma pessoa em sã consciência de livre espontânea vontade organizar e se responsabilizar por um grupo de crianças e adolescentes em uma Bienal do livro com uma multidão junto? O que faz as pessoas esperarem o evento abrir? Pegarem ônibus, metrô, carro e enfrentarem um trânsito de lascar? O que faz um pai, uma mãe ou um parente, um amigo trazer a meninada pra andar de estande em estande procurando o livro dos sonhos e o autor preferido? O que faz um Ser esperar uma ou duas horas o horário de pegar a senha para ver seu(sua) venerado(a) autor(a)? O que faz uma pessoa fazer uma inscrição para querer fazer um seminário sobre leitura? O que faz uma pessoa esperar numa fila quilométrica para entrar na Bienal?

As pessoas que amam esse universo saberão a resposta. O que faz isso é a loucura. Sim são loucos. Todos! E até os que caem na história de gaiato acompanhando amigos no evento acabam sendo inseridos na maravilhosa loucura. A loucura da leitura. Haviam autores de vários gêneros e livros de vários assuntos, mas quando o tema literário vinha a tona a loucura era muito passional. Uma viagem louca, sensacional e fantástica. E quando vamos a uma Bienal percebemos que não somos os únicos loucos. Nos identificamos com o hospício todo, já na fila para entrar fazemos amizades partilhando da mesma paixão. A paixão de ler está no DNA, tatuada na pele, pode ter sido implantada pelos pais que também adoravam ler. Pelos professores que apresentavam os livros, ou por contadores que nos contavam histórias. Pode ter sido introduzida em um momento em que precisávamos dar as mãos aos livros, pois não tínhamos a quem dar as mãos. Quem sabe agregada em um tempo de delicioso ócio. Ou foi nos apresentada como uma nova amiga por velhos e bons amigos.

A verdade é que não nos consideramos loucos, e sim os outros, que não são como nós. Que não valorizam aquilo que amamos. Que dizem “Ah eu não vou na Bienal, tem que pagar pra entrar.” “Acho isso um absurdo temos que pagar pra entrar e pra comprar livros lá dentro”. Já paguei para entrar em lugares, nos quais tive que pagar  dentro do local pra consumir. Não ouvi ninguém reclamando. Entender o mercado literário é saber que literatura e dinheiro, na maioria das vezes, não são palavras sinônimas. E por causa de pessoas que consideram o livro e tudo relacionado a ele como supérfluo, que muitos gênios das histórias lutam por sua sobrevivência no meio literário. Porque um autor não sobrevive sem um leitor. E um leitor faz o que ele faz de melhor. Ele lê.

Pra quem vai em bienais, pra quem não vai mas ama ler. E pra todos que são loucos por literatura, vocês não estão sós. Que vocês continuem indo nas bienais, que  os pais levem os filhos, que os tios levem  sobrinhos, que os avós levem os netos, que os professores levem os alunos. Que os leitores façam discípulos. Que os contadores contem histórias, que os poetas declamem poesia, que  os atores apresentem a palavra, que blogueiros falem dos livros, que os autores alimentem nossa mente e imaginação. Que como crianças mergulhemos por inteiro no fantástico mundo da literatura.

Texto: Glaucione de Laet 
Foto: Fotógrafo(a) desconhecido(a)

Deixar Uma Câmera Fotográfica Na Mão de Uma Criança?

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Deixar uma câmera na mão de uma criança?
Nem pensar de jeito nenhum

Emprestar meu celular pra ele tirar foto?
Você está ficando doida?

Tanta coisa pra ensinar vai ensinar criança a tirar foto?

Esses questionamentos sempre passam por mentes que não consideram a criança como digna de confiança ou capaz de aprender. A criança pode muitas coisas se considerarmos que ela é capaz. Mas se não darmos a chance da criança tentar, nunca saberemos o poder surpreendente de autonomia de um pequenino. É claro que dependendo da idade temos que ter algumas ressalvas por conta da viabilidade da atividade e do grau da percepção infantil. Porém não temos o direito de privar a criança do contexto tecnológico no qual ela JÁ está inserida.

A minha sobrinha desde pequena sempre gostou de tirar fotos. Por que? Porque ela vive num mundo em que os pais, os avós, os tios, parentes, professores e amigos tiram fotos. Se todos  tiram fotos dela, por que ela não pode tirar? A minha cunhada e eu sempre demos a minha sobrinha a chance de tirar as próprias fotografias. Não digo que foi fácil. Tinha momentos que ela queria correr com a câmera na mão, tinha momentos que a câmera caía sim. E eu como tia (que só tinha uma câmera) via meu coração disparar, e novamente eu tinha que dizer a ela do cuidado que ela teria que ter com a câmera se quisesse continuar a tirar suas belas fotos. Apreciávamos o processo de aprendizado dela e no divertíamos com seus achados na lente imperceptíveis aos olhos adultos.

O olhar dos pequenos sempre se tornam pras coisas sensacionais que nós adultos não prestamos atenção. Quando entregamos uma câmera pra uma criança, ensinamos como utilizá-la (às vezes é o contrário), damos liberdade pra ela explorar o equipamento, e tirar foto do que quiser, nos tornarmos agentes mediadores do conhecimento e expectadores de pequenas felicidades.

Se você nunca entregou uma câmera pra uma criança peço que o faça e veja o quanto ela irá te surpreender. Mas se mesmo assim você sente insegurança de confiar a câmera aos pequenos, abaixo enumerei algumas dicas:

  • Mostre a criança sua câmera, converse com ela sobre as funções dos botõezinhos de ligar e desligar, o porquê da cordinha ao lado da câmera, a lente, onde se coloca o dedinho pra ele não aparecer na fotografia.
  • Em um primeiro momento deixe a criança manusear a câmera apertando os botões junto a você, peça que repita as funções de cada um pra ver se realmente entendeu. Mas não demore muito criança perde o interesse se fica chato.
  • Deixe que a criança fotografe o que quiser: bichinhos, pés, amigos, você, flores, texturas deixe a criatividade dela guiá-la.
  • Permita que ela explore o equipamento com curiosidade e o interesse dela fará com que você se aprofunde no assunto e ensine outras funções mais complexas como a do zoom por exemplo.
  • Depois que a criança tirar bastante fotos coloque os arquivos em um computador ou televisão para que suas fotos possam ser apreciadas.
  • Não critique jamais a criança. Até as fotos mais bizarras (quem nunca as tirou) devem ser consideradas com respeito. Pois a maneira como se conduz a experiência pode bloquear o aprendizado.
  • Se quiser aprofundar no assunto dê dicas para que as fotografias fiquem mais bonitas:
    Quanto mais parada a mãozinha ficar mais nítida a foto ficará. Quanto mais se aproximar, maior o objeto da foto ficará…
  • Faça perguntas, analise junto com a criança as produções delas:
    Por que será que o rostinho do colega não apareceu na foto? Por que será que a foto ficou tão clara? Ou escura?
  • Faça experiências:
    Vamos tirar a foto dessa forma (invente) pra ver como ficará?
  • Peça sugestões:
    Como a foto ficará mais legal?
  • Se você tiver mais de uma criança e só uma câmera faça combinados com elas sobre a ordem e o tempo de cada utilizar a máquina fotográfica.
  • Ouça as crianças. Elas tem a resposta para quase tudo.

Boa experiência!

Se você quiser me conte depois. Vou ficar feliz em saber que a minha experiência ajudou você de alguma forma.

Texto: Glaucione de Laet 
Fotografia: De um(a) fotógrafo(a) que eu queria saber o nome